Vivências e dicas de uma família que adora uma viagem ;)!

Em Florianópolis é temporada o ano todo

Ponte Hercílio Luz - Cartão postal de FlorianópolisA temporada de verão acabou e os turistas deixam Florianópolis, capital de Santa Catarina. Mas só a “temporada” acabou. Os encantos de Floripa continuam aqui, e com outros aromas e cores, afinal… Florianópolis não é só praia, sol e surf

Mas, Floripa no inverno? Isso mesmo!

Ficamos entusiasmados com a programação que nosso guia – Sérgio Machado – nos reservou. Ele é nativo da ilha e também proprietário da Adrenailha, operadora associada à ABETA – Associação das Empresas de Turismo de Aventura – e participante do Programa Aventura Segura, do Ministério do Turismo.

Nossa primeira atividade foi o cicloturismo no sul da ilha. Depois de equipados e familiarizados com as bikes, iniciamos nossa pedalada pela praia do Pântano do Sul. Da areia para a terra; saímos da praia e entramos em uma estradinha que atravessa a ilha de leste para oeste.

Início do passeio de bike pela praia Pântano do Sul

No inicio, ainda perto da praia, a estrada é plana e com algumas curvas, depois da comunidade Costa de Dentro, indo em direção à comunidade do Sertão, o percurso começa a ficar mais íngreme. Em muitos momentos tivemos que descer das bikes para empurrar (nosso preparo físico não estava dos melhores), mas isso não prejudicou o passeio. Pudemos apreciar com mais calma as paisagens por onde passávamos. É possível fazer o trajeto de carro também, a estrada é de terra. Cuidado apenas quando chove muito. Algumas subidas e descidas ficam bem escorregadias.

Preparando para o pic-nic consciente

Naquele interior da ilha, muitos ainda vivem como seus avós, com pequenos roçados de agricultura de subsistência, galinhas e vacas. Passamos também por alguns engenhos de cachaça. Há também os mais jovens, que preferem trabalhar fora da comunidade, mais próximos do litoral, em restaurantes, na pesca e maricultura (Florianópolis é um dos principais produtores brasileiros de mariscos).

Continuamos subindo e a paisagem rural vai ficando para trás dando lugar à floresta de Mata Atlântica.

Já passava da hora do almoço e estávamos com fome. Foi quando Sérgio nos indicou uma pequena trilha que saia da estrada. Extremamente curta e bem fácil, ela nos levou à Cachoeira do Rio do Peri, que por causa da falta de chuvas estava com um curso d’água bem baixo. “Normalmente ela é mais cheia e aqui embaixo dá pra tomar um banho” – diz o nosso guia, que sempre ia lá quando criança. Águas limpas e cristalinas, aproveitamos também para abastecer nossos squezes.

Descaço merecido depois do lanchinho - Cachoeira do rio PeriSentados bem no topo dela, fizemos nosso pic-nic consciente; pão caseiro (feito pela Cléa – esposa do Sérgio), mel orgânico e biscoitos de amendoim, comprados a granel na feira do bairro, nos devolveram parte da energia gasta até ali. Na medida do possível, evitamos consumir produtos com embalagens individuais, que acabam gerando lixo desnecessário.

Depois de recolher tudo e nos certificar de que nada ficou para traz, lixo principalmente, pegamos nossas bikes, que havíamos deixado encostadas numa árvore ali mesmo na trilha, e voltamos para a estrada, seguindo o nosso rumo a caminho do Ribeirão da Ilha, nosso objetivo.

Enfrentemos ainda um pouco de subida, e quando íamos começar a reclamar… eis que a paisagem nos revela o mar da costa oeste da Ilha de Florianópolis… e mais ao longe, o continente. O sol já estava baixo, valorizando ainda mais as cores do entardecer. Agora é só descida, na direção do pôr-do-sol. Ao final da descida chagamos no Ribeirão da Ilha já era noitinha, completamos 15 km de pedal.

No final do dia, um presente da natureza - Cachoeira do rio Peri

Ribeirão da Ilha é um bairro à beira mar com casario histórico e tradição açoriana, fomos passar a noite na Pousada e Restaurante do Museu.

Museu da Pousada do Museu - Ribeirão da IlhaPela manhã conhecemos Marco Antônio, proprietário da Pousada e também do Eco Museu. Descendente dos açorianos, que colonizaram a ilha, Marco reproduz no museu, uma verdadeira casa açoriana; entrada principal pela lateral da casa, janelas da sala de frente para o mar – “por que os açorianos são um povo do mar” e quartos sem janelas “porque eram muito supersticiosos e acreditavam que suas mulheres seriam roubadas por bruxas ou lobisomens durante a noite” – nos conta Marco.

Acervo do Museu - Ribeirão da IlhaO museu tem ainda em seu acervo, peças de até 250 anos de idade e peças mais modernas que vão contando a história da evolução. Vimos, por ex, uma pedra vulcânica que os açorianos trouxeram e usavam para moer farinha, vimos uma cama antiga – com colchão de crina de cavalo, colcha de fuxico e mosquiteiro – arrumadinha como que convidando para um descanso, vimos utensílios domésticos, ferramentas de construção e de pesca, objetos de 1906 como o gramofone – restaurado na oficina do museu (como todas as peças do acervo) e aprendemos também a origem de expressões tão usadas ainda hoje, como o “sem eira nem beira”.

Antigamente, na construção de uma casa, quanto maior as posses do dono, maiores eram as “eiras” (avançado do telhado – como se fosse a cobertura de uma varanda) e as “beiras” (parte do piso ao redor da casa que acompanhava o tamanho das eiras). Dessa forma, uma pessoa de poucas posses não poderia construir eiras e beiras muito grandes, daí vem a expressão pejorativa do “sujeito sem eira nem beira”.

Depois dessa deliciosa aula de história, fomos almoçar no Rancho Açoriano, que resgata a cultura local por meio da decoração e do cardápio com pratos típicos como ostras e anchovas (peixe comum na época de julho e agosto) grelhada com pirão (que vem da mescla da cultura indígena com a açoriana), além de outras opções deliciosas peixes e frutos do mar. Após o almoço, conhecemos a rotina de uma fazenda de criação de ostras ao lado do restaurante – desde a semente, fornecida pela Universidade de Santa Catarina, até a ostra adulta, servida nos restaurantes.

Escalada no Ribeirão da IlhaÀ tarde, Sérgio nos leva para escalar em uma pedreira desativada em Ribeirão da Ilha mesmo. O Marcelo já tem alguma experiência em escaladas, mas era a minha primeira vez e o Sérgio escolheu uma via bem fácil.

Depois de armar todo o sistema de segurança, ele nos apresentou os equipamentos principais e nos contou um pouco sobre a implementação do processo de Certificação em Turismo de Aventura. Motivados e seguros, a escalada foi uma experiência com adrenalina e emoção na medida certa. Nosso dia foi fechado com outro lindo pôr-do-sol. O céu estava bem limpo e com cores bem vivas, características de um céu de inverno.

Visual do topo da pedreira - baia sul e a vista do morro Cambirela no continente

Depois da escalada, fomos para a praia do Campeche (subindo em direção ao norte da Ilha), para passar a noite na Pousada Natur Campeche. Na manhã seguinte, conhecemos as ações ambientais adotadas pela pousada, como aquecimento da água por energia solar, compostagem do lixo orgânico, coleta seletiva de lixo para reciclagem e política de economia de água da lavanderia, entre outras. Sempre buscamos saber se nos locais onde nos hospedamos é feita alguma ação responsável junto a comunidade (como a contratação de mão de obra local, por ex) ou para o meio ambiente, e a Natur Campeche se preocupa com tudo isso.

Seguimos nosso caminho subindo rumo ao norte da ilha de Florianópolis, a praia do Santinho, para conhecermos o maior circuito de arborismo (também chamado de arvorismo), do sul do Brasil, da operadora Ekoeté – também associada à ABETA e participante do Programa Aventura Segura. Nosso guia, Everton Àvila (o Camarão), nos equipou com cadeirinhas, mosquetões, polias e capacetes e nos deu explicações detalhadas sobre a atividade.

Arvorismo na Praia do SantinhoArvorismo na Praia do Santinho - um visual de perder o fôlegoMomento

O arvorismo é composto por um circuito de pontes, que possibilita, além da superação de limites de cada um, a interação com a natureza em locais até então inacessíveis (no nível das copas das árvores). As pontes e estruturas basicamente são feitas utilizando cabos de aço, eucaliptos tratados, cordas, redes e plataformas fixas (usadas para fazer a interligação das pontes). Nesse circuito passamos por 29 pontes (ou estações), de até 10 metros de altura. Entre elas; pontes pênseis, pontes de troncos (fixos e móveis), travessias com redes, túneis, etc. O visual lá de cima era incrível: de um lado, a praia do Santinho, e de outro o enorme campo de dunas do Parque Estadual do Rio Vermelho. Depois desses 28 desafios sobre as árvores, o último foi uma tirolesa com 100 metros de comprimento que terminava em um enorme e macio travesseiro. Nessa descida, atingimos a velocidade de 40km/h! Adrenalina pura!

Este é considerado o maior circuito de arvorismo do sul do Brasil

A tarde, ainda no norte da ilha, fizemos um trekking no morro dos Ingleses, cruzando da praia dos Ingleses para a praia do Santinho pela mata atlântica. É uma caminhada leve e agradável. Passamos por vários tipos de paisagens diferentes: restinga, mata de encosta regenerada, vegetação densa de mata atlântica, costão rochoso, campo de dunas e praias. Descobrimos que há não muito tempo, lá pelas décadas de 60, as rendeiras usavam os espinhos de uma espécie de cactos, chamado arumbeva – muito comum naquela região, para não ter de ir até o centro da cidade comprar alfinetes de aço para usar nas almofadas de renda de bilro, artesanato popular da região.

Final do Trekking, na Praia dos InglesesChegando à Praia do Santinho, fomos conhecer algumas inscrições rupestres e oficinas líticas, que são vestígios deixados pelos homens pré-históricos que utilizavam de um determinado tipo de rocha (diabásio ou granito) para afiarem e polirem seus instrumentos de pedra. Estes sítios estão espalhados por diversos pontos da Ilha de Santa Catarina; na praia da Galheta, Armação, Ilha do Campeche, Ponta das Canas, Barra da Lagoa, Joaquina, Ingleses (única sinalizada ao público) e praia do Santinho, que como os outros, passam despercebidos pelos turistas por não ter nenhum tipo de sinalização ou advertência para a preservação. Ali, nosso guia nos ensina um pouco sobre os costumes dos habitantes que viveram na ilha há mais de 5.000 anos. Aprendemos que eles viviam basicamente da pesca, que desconheciam a agricultura e que ficavam mais próximos ao litoral do que no interior da ilha.

Terminamos nosso trekking na praia dos ingleses, num lindo final de tarde.

Enfim, foram 3 dias intensos e, além de vivenciarmos novas experiências e conhecermos mais sobre a cultura açoriana, fizemos um turismo mais consciente, mais responsável, mais sustentável…

Isso mesmo. Nós preferimos os serviços de guias nativos (e não guias de fora da região), procuramos experimentar a culinária típica feita pelos locais (e não fast-food ou restaurantes de “griffe”), conhecemos a cultura e o artesanato local como as peças feitas de renda de bilro (e não camisetas silkadas tipo “eu amo Floripa”), tomamos o cuidado de não deixar lixo para trás nas trilhas (muitos ainda deixam na beira da estrada achando que “alguém” vai passar e recolher), praticamos atividades de aventura com uma empresa que participa do Programa Aventura Segura, e preferimos meios de hospedagem que se preocupem com a comunidade e o meio ambiente.

Com essas pequenas ações, agregamos muito mais valor à nossa viagem; afinal, quem não se sente gratificado sabendo que colaborou diretamente para a subsistência dessas famílias (dos guias, dos cozinheiros, das artesãs, das arrumadeiras…) e que isso os ajuda a continuar vivendo do seu trabalho e que outras pessoas, no futuro, poderão viver as mesmas experiências que você?

Seja você também um viajante consciente! Experimente em sua próxima viagem.

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Confira nesse vídeo algumas imagens de Floripa

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3 Comments

  1. 15 de abril de 2009    

    Alou casal MALY,

    Somos o casal MaraCatu. Também levamos uma vida de viajante, só que em cima da água: vivemos a bordo de um veleirinho sempre navegando por este Brasilsão e por águas internacionais também.

    Chegaremos em Floripa na próxima segunda (20), não vamos de barco e sim voando. Notei pelo rastreador Spot da KobiHome que estão em Floripa. Gostaríamos muito de conhecê-los e trocar umas idéias. Ficaremos por aí até o sábado 25, se tiverem um tempinho para um bate-papo nos de um retorno pelo e-mail acima.

    Bons ventos, e estradas, sempre

    Hélio e Mara

  2. Olá Hélio e Mara,

    Será um prazer conhecê-los pessoalmente.

    Enviamos um email. Vejam lá.

    abs

  3. rafaela's Gravatar rafaela
    1 de outubro de 2009    

    oieee adorei teu blog!
    o sertaoo do ribeiraoo da ilha mora meus parentes !
    ela é um lugar muito lindooo devem sempre apareser por la!
    hsuahsuahus

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